sábado, 12 de março de 2011


Estrela-alva dos meus olhos, tu és a razão para que, na noite, as janelas se apagam! Os flancos do meu corpo desmaiam em folhos para se animarem na candeia dos teus olhos, no carinho que tuas mãos afagam!

Tu não vês, mas sabes ser-me melhor que qualquer um! E eu, se me distraio de quando em vez, desempenho-te, espontânea, com a mais perfeita fluidez, sem que tenha intento algum…

És o meu lado fulgente, florescente, e eu serei, certamente, o teu lado lusco, imperfeito, lunar! Embora o meu vício de ti te desconcerte e desconcentre, lembra-te que foi no âmago do meu ventre que te tricotaram, erótico, o aconchego de um ninho…

E se um dia me sentires a falta, não há árvore que seja demasiado alta, para receber a visita de um passarinho!!!

-Joana Nardo

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Verdade ou Consequência



Espero-te tanto e tu, seguro, estendes-te, adias-me e demoras! Estou entediada, sem crenças, nem futuro e pouco tardo em adormecer-me no silêncio deste escuro, de tão compridas que são as conjecturas e as horas! Mas tu conheces-me, amor, tu sabes que o meu sono desassossega na claridade dum raio de luz… E quando chegas discreto e de mansinho, sinto-te frio e liso como o linho, atravessas-me a alma a medo e cruz.

Com medo que partas precipitado, nesse teu ímpeto que me confunde e atordoa, prolongo o meu sono fingido e dissimulado, que te mantém a culpa na esfinge da cabeceira, onde a consciência, de todo o modo, desaprova, delibera e perdoa de qualquer maneira!

Eu sei que gostas de jogar de faz de conta, eu confesso que sempre preferi o “verdade ou consequência”, mas se só nessa circunstância uma lembrança minha desponta, então é para esse lado que meu bom senso aponta e onde me acenam, inevitáveis, os remorsos da demência!


-Joana Nardo

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ninguém te valoriza e preza mais do que tu mesma,





Só tu sabes o que realmente acontece dentro de ti! E se a tua vida se move na locomoção inerte de uma lesma, sem esperar a presença de espectadores em resma acena feliz e graciosa, aplaude-te, pestaneja, sorri!

Ninguém é o véu translúcido e evidente que diz ser! O que há de mau em ti rapidamente se manifesta! Os filtros coadores que nos impõem o rótulo de pessoa honesta detêm o que é mais insólito e aprazível de se ver! Por isso grita, desarruma, transcende, invade e luta, nada mais existe que esta repudiada gruta, onde todos se adormecem na mais voluntária sesta!

E quando ninguém der por ti, lembra-te, tu és o sorriso que brilha num rubi, numa pedra anónima a que ninguém atenção presta!


- Joana Nardo

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

“De nenhum fruto queiras só metade.”



Não esperes pela entrega e inteireza de quem se oprime na incerteza de um amor que se manifesta em dualidade! E mesmo que suspire e te apelide de princesa, suspeita com a mais digna estranheza da instituição do seu trono da verdade! Os reinados são das rainhas com riqueza… e mesmo que suas frases se profiram suaves e com delicadeza, lembra-te que é apenas um rito de desvario, da mais extravagante e masculina vaidade!

Não te permitas que te estanquem um sonho, ou crenças e intenções! Verás que revogar é fastidioso e enfadonho e que o domínio, conquistas e pertenças são as mais vis de suas doenças e o único sangue que lhes sacode os corações!

Não vivas plácida na peneira dos dias, não aguardes uma colheita incerta com as esperanças em alvoroço. O tempo desperta muitas sinestesias, deforma-te as lembranças deixando apenas um borratado esboço, mas também dissolve, progressivo, a mais entranhada das agonias que te surge, quotidiana, quase sempre em carne e osso.

E se te intentarem a provar num fruto saborosas doçarias, lembra-te que somente o aprecias, se o comeres todo até à vala do caroço!


-Joana Nardo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Não tenho mais palavras. /Gastei-as a negar-te.../ (Só a negar-te eu pude combater/ O terror de ver/ Em toda a parte)



Resigno-me, desisto. Decepcionei-me e há muito que estou cansada! Mas na fadiga em que escrupulosamente te contesto, logo surge em manifesto a saudade que tanto oprimo, espezinho e detesto, a paradoxa repulsa de quem se perdoa do gesto de descer “mais um” degrau da eternidade de uma escada.

Odeio-me por ceder a este impulso e escrevo-te na contra-mão do meu orgulho e estima! Apelo quase que em oração ao escárnio e ao desdém, que quero expulso neste apregoar que tanto te protesta e lastima! Mas quando o sono me extenua e enfraquece, é tua figura que me vence e apetece… E esse rosto que trago na lembrança como refém é a ponte que me leva além da persistência que nos afasta e detém e onde a nossa ausência nos aproxima.

Mas tu sabes amor, que a abelha fenece após cravar o ferrão na semelhança de uma flor, cuja escolha lhe pareceu conveniente e acertada! E como vês, continuo escrava deste amargor, que é esta dor, este fio condutor que me leva sempre à solidão onde desmaiam tristes as casas da calçada.

“Mas o tempo moeu na sua mó/ O joio amargo do que te dizia.../ Agora somos dois obstinados / Mudos e malogrados, / Que apenas vão a par na teimosia”

-Joana Nardo

segunda-feira, 19 de julho de 2010

“Sempre que eu insisto eu esqueço que existo. Agora sim não falo só por mim, eu quero-te a provar do que é teu.”





E a cada intenção falhada é apenas mais uma bofetada, já estava previsto! À flor mais bonita do jardim é-lhe dada a esmola em água, coitada, quando indaga o azul fundo que o dia lhe dá no céu!

Cismo amor, teimo tanto e fico triste… as horas escorrem intermitentes no desagrado com que se desprendem as lembranças que tenho tuas! E no fim, o rosto fica molhado, gritar vigorosa para tua surdez é como o miserável que se arrasta cansado na lucidez onde se prolongam, compridas, as ruas…

Na escassa possibilidade que cesses essas melodias alheias que te entretêm e que me esquecem, experimento o desassossego e inquietação que me confere a ambiguidade das incertezas! Anulo-me numa espera doentia de que só os desgostosos padecem, para quando te cansares de usar bijutaria que só os pequenos merecem, te assegurar a riqueza digna da mais exuberante e nobre das realezas!


-Joana Nardo

sexta-feira, 2 de julho de 2010

"Devias estar aqui rente aos meus lábios,



Para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um" pois se julgas que a saudade desvanece com a mesma ingratidão com que te desacelera veloz o coração relembro-te, que não é o silêncio que amortece a euforia de encontrar tamanha poesia, na vulgaridade de um rosto estranhamente comum!

Crês ingénuo e inocente, que por me ver de ti ausente, esta bem-querença amolece na mesma duração em que desaparece um lembrança antiga, quase inexistente! Acredita que são as coisas mais insignificantes que me apelam à mais fácil recordação tua... E se te revejo na aragem fresca dos instantes, em vez do descompasso onde se beijam vorazes os amantes, amar-te-ia menos por me sujeitares à placidez deste silêncio áspero, que a tua falta continua?

"Eu vi terra limpa no teu rosto/ Só no teu rosto e nunca em mais nenhum", eu encobri minha fome em muita boca e gosto, mas na isenção do teu paladar saciante, por suposto, reconheço que tenho andado miserável e em jejum!




-Joana Nardo